* A arte pela arte
Adoro política, e adoro arte, mas a união de ambas é suspeita. Quando penso no Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago, vêm-me à memória algumas observações interessantes: as cadeias de pensamentos que enrolamos e desenrolamos como um novelo, tentando identificar a sua origem; toda a cena da morte de José, entre os rebeldes; a ideia genial de que, no sacrifício religioso, os animais mortos têm de ser puros, evidenciando que a pureza só pode ser mantida enquanto houver no mundo criaturas inocentes para sacrificar (no fundo, é a crítica de Larry à religião que admite a salvação, não por uma conduta justa, mas pela bajulação, mesmo quando esta é feita à custa do mal).
Apesar disto, não gostei do livro. Não gostei do tom, do moralismo, do iconoclasmo que me pareceu desnecessário. Lembro-me, por exemplo, da cena de sexo entre José e Maria. Sim, seja, mas para quê dizê-lo, e dizê-lo desta forma? Incomoda-me a falta de respeito ostensiva e inconsequente, que magoa sem causar nenhum bem. Fernando Pessoa penitenciou-se certa vez por quebrar as convenções apenas com o intuito de chocar, rebaixando assim a alta dignidade da Arte. A raiva, ou o que percepciono, porventura erradamente, como raiva, causa-me sempre desconforto, e se em política ela pode ser aceitável – até por produzir a síntese entre razão e ética, como dizia Sócrates, se bem o entendi – no humor e na arte não me agrada.
Yeats tem um poema, Politics, que leva a discussão um pouco mais além, especialmente pela citação em epígrafe:
‘In our time the destiny of man presents its meanings in political terms’ – Thomas Mann
How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here’s a travelled man that knows
What he talks about,
And there’s a politician
That has read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war’s alarms,
But O that I were young again
And held her in my arms!
Yeats escolhe a juventude e a rapariga, o que é louvável, mas gosto da frase de Thomas Mann. A Arte é a apresentação estética das coisas, e se o que a época impõe são coisas políticas, deslocar o foco para outros temas requer “um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram, e têm um quê de heróico, ou então uma vitalidade muito robusta”. Não penso, como Stendhal, que a política numa obra literária é um tiro de pistola no meio de um concerto, e muitos dos livros que mais aprecio são profundamente políticos, mas é importante notar a diferença abissal entre apresentar a política esteticamente e fazer política através da arte.