October 2005

Primum ego, tum ego, deinde ego *

* Primeiro eu, depois eu, a seguir eu

Toda a gente gosta dela, de Tamina. Porque sabe ouvir o que lhe contam.

Mas ouvirá, realmente? Ou limita-se a olhar, tão atenta, tão silenciosa? Não sei, e não tem muita importância. O que interessa é que ela não interrompe. Sabem o que acontece quando duas pessoas conversam. Uma fala e a outra corta-lhe a palavra: é exactamente como eu, eu…
(…)
Toda a popularidade de Tamina vem de ela não querer falar de si mesma. Aceita sem resistência os ocupantes do seu ouvido e nunca diz: é exactamente como eu, eu…

— Milan Kundera, in O Livro do Riso e do Esquecimento

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In vino veritas *

* A verdade no vinho

Mas, simplesmente, não discutiam a questão de saber como uma pessoa se podia tornar teólogo, e, na situação espiritual do presente, ter a ideia de escolher tal profissão, a não ser que se obedecesse apenas ao mecanismo de uma tradição familiar, e da minha parte teria sido, sem dúvida alguma, um procedimento indelicado inquiri-los sobre os seus motivos. Uma indagaçao tão radical como esta seria adequada e auspiciosa, quando muito, diante de espíritos desinibidos pelo álcool, por ocasião de alguma farra. É, no entanto, escusado dizer que os filiados na «Winfried» se gabavam de desdenhar não só o duelo regulamentar, mas também a obrigação de se «meter nos copos», de modo que andavam sempre sóbrios e, portanto, inacessíveis a interrogações críticas sobre problemas fundamentais.

— Thomas Mann, in Doutor Fausto

O humor de Mann é fino e sóbrio. Este excerto interessa-me também pelo valor da verdade; a “verdade do vinho” é considerada uma fraqueza, e é natural que assim seja, mas não deixa de ser curioso. Esbate-se a fronteira entre o bem e o mal, e percebe-se que o mundo é mais complicado.

A sua suprema angústia era a desaparição da certeza. (…) Ser obrigado a confessar que a infalibilidade não é infalível, que pode haver erro no dogma, que um código não prevê tudo, que a sociedade não é perfeita, que a autoridade é complicada de hesitação, que pode dar-se um abalo no imutável, que os juízes são homens, que a lei pode enganar-se, que os tribunais podem errar!

— Victor Hugo, in Os Miseráveis

Humor

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Ad Majorem Dei Gloriam *

* Para a maior glória de Deus

Segundo a doutrina e o regulamento do fundador e primeiro general, o espanhol Loyola, prestavam-se serviços, serviços mais grandiosos do que todos os daqueles que agiam guiados pelo bom senso. Realizavam a sua obra, ex superrogatione, indo além do dever, não se limitavam a resistir à rebelião da carne (rebellioni carnis), o que não passava, em suma, daquilo que faz todo o homem dotado de mediano bom-senso, mas também combatiam as tendências para a sensualidade, o egoísmo e o amor às coisas mundanas, até em assuntos que geralmente eram considerados como lícitos. Pois agir em detrimento do inimigo (agere contra), quer dizer, atacar, era mais honroso e mais importante do que resistir apenas (resistere). Debilitar e desbaratar o inimigo, dizia o regulamento de serviço de campanha; e o seu autor, o espanhol Loyola, estava uma vez mais completamente de acordo com o capitán general de Joachim, Frederico da Prússia, e com a sua regra de guerra: «Atacar, atacar! Não dar tréguas ao inimigo! Attaquez donc toujours!».

— Thomas Mann, in Montanha Mágica

Ética

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Si vis amaria, ama *

* Se queres ser amado, ama

E, quando regou pela última vez a flor, e se dispunha a colocá-la sob a redoma, percebeu que estava com vontade de chorar.

– Adeus, disse ele à flor.

Mas a flor não respondeu.

– Adeus, repetiu ele.

A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.

– Eu fui uma tola, disse por fim. Peço-te perdão. Trata de ser feliz.

A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a redoma no ar. Não podia compreender essa calma doçura.

– É claro que eu te amo, disse-lhe a flor. Foi por minha culpa que não soubeste de nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz…

— Antoine de Saint-Exupéry, in O Principezinho

It reminds me of David’s sense of loss:

‘Ah, Trot!’ said my aunt, shaking her head, and smiling gravely; ‘blind, blind, blind!’

‘Someone that I know, Trot,’ my aunt pursued, after a pause, ‘though of a very pliant disposition, has an earnestness of affection in him that reminds me of poor Baby. Earnestness is what that Somebody must look for, to sustain him and improve him, Trot. Deep, downright, faithful earnestness.’

‘If you only knew the earnestness of Dora, aunt!’ I cried.

‘Oh, Trot!’ she said again; ‘blind, blind!’ and without knowing why, I felt a vague unhappy loss or want of something overshadow me like a cloud.

— Charles Dickens, in David Copperfield

Emoções

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E pluribus unum *

* De muitos, um

E pluribus unum é o lema original dos Estados Unidos da América, simbolizando a união dos treze estados. Admiro a vitalidade e dinâmica do povo americano, para quem não havia limites, segundo Jean Monnet, e que conquistaram o coração de muitos sonhadores, mas hoje é o sentimento anti-americano que se espalha pelo mundo; em parte por boas razões, mas também por inveja dos que não suportam a sua posição inferior, como este excerto de um artigo de Vasco Pulido Valente retrata:

Há um século que a América anda a cometer erros sem nome. Resolveu a I Guerra Mundial e ditou largamente as condições de paz. Sem ela, na II Guerra, o Exército Vermelho teria chegado à Mancha. Durante trinta anos defendeu o Ocidente e uma larga parte do planeta da expansão soviética. E, no fim, ganhou, acabando com o mito do socialismo, «real» ou virtual. Pior ainda: espalhou a sua cultura popular pela terra inteira, subverteu a ética sexual com uma revolução única na história e, na ciência e tecnologia, deixou toda a gente para trás. Fora isso, é rica, forte e livre. Coisas destas não se desculpam. A «Europa» não lhe desculpa a sua decadência. Os pobres não lhe desculpam a sua pobreza. As civilizações arcaicas não lhe desculpam o seu atraso.

É possível que esteja em declínio, a grandeza americana, inversamente proporcional ao diâmetro médio dos seus cidadãos; talvez este fascínio pelo espírito fundador que o país representa, seja equivalente ao de Elliott, n’O Fio da Navalha, quando via nos medíocres descendentes da aristocracia, que abrilhantavam as suas festas, clarões da glória e esplendor de antepassados remotos. Resta, contudo, uma dívida de gratidão, pelo que Churchill considerou o acto mais generoso da História, e a esperança de reconciliação, para bem da Humanidade.

Desde então, a História ensinou-me a formar outra opinião acerca dos que nos venceram daquela vez e em breve o farão novamente, aliados aos revolucionários do Leste. Verdade é que certas camadas da democracia burguesa pareciam, e parecem também hoje, merecer o que acabo de chamar de domínio da escória, dispostas como estão a pactuar com ele, a fim de conservarem por mais tempo os seus privilégios. Porém, para exercerem esse domínio, surgiram líderes que, assim como também eu, rebento da mentalidade humanista, consideravam-no o supra-sumo da desgraça que se pudesse e devesse impor à Humanidade. Levaram, portanto, o seu mundo a lutar até à morte contra ele. Nunca seremos capazes de expressar toda a nossa gratidão a esses homens, e a sua acção demonstra que a democracia dos países ocidentais, não obstante tudo quanto haja de obsoleto nas suas instituições, não obstante toda a obstinação com que as suas ideias de liberdade se opõem às necessárias inovações, trilha, por essência, o caminho do progresso humano, da boa vontade de aperfeiçoar a sociedade, e tem, segundo a sua natureza, a força indispensãvel para renovar, corrigir, rejuvenescer e finalmente instaurar condições de vida mais equitativas.

— Thomas Mann, in Doutor Fausto

Política

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Ars gratia artis *

* A arte pela arte

Adoro política, e adoro arte, mas a união de ambas é suspeita. Quando penso no Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago, vêm-me à memória algumas observações interessantes: as cadeias de pensamentos que enrolamos e desenrolamos como um novelo, tentando identificar a sua origem; toda a cena da morte de José, entre os rebeldes; a ideia genial de que, no sacrifício religioso, os animais mortos têm de ser puros, evidenciando que a pureza só pode ser mantida enquanto houver no mundo criaturas inocentes para sacrificar (no fundo, é a crítica de Larry à religião que admite a salvação, não por uma conduta justa, mas pela bajulação, mesmo quando esta é feita à custa do mal).

Apesar disto, não gostei do livro. Não gostei do tom, do moralismo, do iconoclasmo que me pareceu desnecessário. Lembro-me, por exemplo, da cena de sexo entre José e Maria. Sim, seja, mas para quê dizê-lo, e dizê-lo desta forma? Incomoda-me a falta de respeito ostensiva e inconsequente, que magoa sem causar nenhum bem. Fernando Pessoa penitenciou-se certa vez por quebrar as convenções apenas com o intuito de chocar, rebaixando assim a alta dignidade da Arte. A raiva, ou o que percepciono, porventura erradamente, como raiva, causa-me sempre desconforto, e se em política ela pode ser aceitável – até por produzir a síntese entre razão e ética, como dizia Sócrates, se bem o entendi – no humor e na arte não me agrada.

Yeats tem um poema, Politics, que leva a discussão um pouco mais além, especialmente pela citação em epígrafe:

‘In our time the destiny of man presents its meanings in political terms’ – Thomas Mann

How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here’s a travelled man that knows
What he talks about,
And there’s a politician
That has read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war’s alarms,
But O that I were young again
And held her in my arms!

Yeats escolhe a juventude e a rapariga, o que é louvável, mas gosto da frase de Thomas Mann. A Arte é a apresentação estética das coisas, e se o que a época impõe são coisas políticas, deslocar o foco para outros temas requer “um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram, e têm um quê de heróico, ou então uma vitalidade muito robusta”. Não penso, como Stendhal, que a política numa obra literária é um tiro de pistola no meio de um concerto, e muitos dos livros que mais aprecio são profundamente políticos, mas é importante notar a diferença abissal entre apresentar a política esteticamente e fazer política através da arte.

Arte

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Felix Qui Potuit Rerum Cognoscere Causas*

* Felizes os que podem conhecer a causa das coisas

Há uma ideia que me diverte, a do “último homem que sabia tudo”. Alguns propõem o nome de Athanasius Kircher, mas parece-me demasiado recente. Eratóstenes poderia ser um bom candidato; especula-se que o seu cognome, Beta, se deva ao facto de ter sido o segundo melhor em tudo (é controverso, mas se è non vero, è ben trovato). Pouco importa: é difícil definir o que é saber tudo, e se considerarmos um hipotético corpo oficial do conhecimento documentado, num dado momento, em todo o mundo, torna-se inverosímil que tal homem tenha existido, excepto no início da História. Limito-me à situação mais modesta do erudito que, pertencendo a uma civilização na vanguarda da ciência, dominava todas as matérias que podia ler na biblioteca local (façanha já de si admirável), e ombreava com peritos de todas as áreas.

Hoje, com fluxos de informação que atordoam qualquer aprendiz de sábio que escape à norma da especialização, a tarefa tornou-se impossível, o que constitui simultaneamente o drama e a redenção do homem moderno. Seremos ignorantes, sim, e não atingiremos a iluminação, mas ganhamos liberdade e leveza; podemos gozar a Lentidão, o livro mais belo que li de Kundera, e fugir à inexorável e esmagadora pressão do necessário; aquela sensação de que é preciso fazer algo, , sempre. Einmal ist keinmal, diz-se em alemão: viver uma vez é não viver. Mas isto é irrelevante, quando nem uma infinidade de vidas pode satisfazer a sede de saber e experiências. “Não és cobarde, és mártir”, diria Umberto Eco. Escolhes a granularidade que te convém, aprendes o que puderes, enquanto durar a vida, e és feliz.

Razão

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Ave imperator, morituri te salutant *

* Avé, imperador, os que vão morrer saúdam-te

Há uma semana escrevi sobre o sentido da vida; hoje queria dedicar umas linhas ao sentido da morte, mas não me ocorre nada, por isso ficam algumas citações do meu livro preferido. Logos, ethos e pathos:

O logos da morte:

Conheço a morte, sou um dos seus velhos empregados. Creia-me, em geral a gente sobrevaloriza-a demais. Posso afirmar-lhe: é quase insignificante. Porque tudo o que, em certas circunstâncias, precede esse instante sob forma de maçadas não pode ser considerado como parte dela; é o que há de mais vivo e pode conduzir à vida e à cura. Mas ninguém que voltasse da morte seria capaz de lhe contar coisas interessantes a seu respeito porque não damos por ela. Saímos das trevas e entramos nas trevas. Entre estes dois instantes há coisas vividas, mas nós não vivemos nem o começo nem o fim, nem o nascimento nem a morte: não têm carácter subjectivo, como acontecimentos pertencem inteiramente à esfera do objectivo. Assim é que é.

— Thomas Mann, in Montanha Mágica

O ethos da morte:

– Pois é, dedico-me um pouco aos «filhos da Morte». Suponho que é a isso que se refere. Às vezes, acessoriamente, e sem que o repouso sofra por isso, ocupo-me com os casos mais graves, com os mais sérios; compreende? Com aqueles que não estão aqui para se divertir, que vão andando, mas que vão andando para a morte.

– Mas está escrito: «Deixai que os mortos enterrem os seus mortos!» – disse o italiano.

Hans Castorp ergueu os braços e exprimiu com a sua fisionomia que existia muita coisa que estava escrita, de maneira que era difícil discernir o melhor inspirar-se nele.

— Thomas Mann, in Montanha Mágica

Do pathos há muitos exemplos, como a Tous-les-Deux e os seus dois filhos doentes, ou todo o caso de Joachim, “como um soldado, como um valente”, inspirando a reflexão de que “a nossa morte é um assunto para os sobreviventes, mais do que para nós mesmos”. A minha cena preferida, a mais tocante, é a visita de Karen Karstedt, doente terminal, ao cemitério, onde descobriu, entre duas lápides, um pedacinho de terra ainda desocupado:

Os três visitantes detiveram-se ali, a moça um passo à frente dos companheiros, e leram as tristes inscrições gravadas na pedra, Hans Castorp numa atitude de abandono, com as mão cruzadas, a boca aberta e os olhos sonolentos; o jovem Ziemssen em sentido, não somente rígido, mas quase um pouco inclinado para trás; depois do que os primos, possuídos de uma curiosidade simultânea, lançaram um olhar de esguelha para o rosto de Karen Karstedt. Ela perecbeu-o, apesar de toda a discrição deles, e ficou ali, confundida e humilde, com a cabeça inclinada para a frente e um pouco oblíqua; e sorriu, com um ar afectado, avançando os lábios com um rápido piscar de olhos.

— Thomas Mann, in Montanha Mágica

Livre

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Nosce te ipsum / Cura te ipsum*

* Conhece-te a ti mesmo / Cura-te a ti mesmo

Não se trata do medo de Deus mas sim da estima da nossa própria honra e da nossa consciência. Como seria bela e boa toda a Humanidade se, antes de adormecer à noite, evocasse os acontecimentos do dia que passou, se reflectisse no que foi bom e no que foi mau.

Assim, quase sem dar por isso, tentamos corrigir-nos constantemente, e depois de certo tempo alguma coisa conseguimos. Este método toda a gente o pode utilizar, não custa nada, está ao alcance de quem quiser. Quem o não conhece deve aprender e experimentar: «Uma consciência tranquila torna-nos fortes!»

— Anne Frank, in O Anexo

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Brigitte Bardoh-oh-oh

bardot

Cliente: Manelito, se isto que me vendeste é café, eu sou a Brigitte Bardot!
Manelito: Você? Você a Brigitte Bardot?
Manelito: Brigih-ih-ih Bardoh-oh-oh.

Humor

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