November 2005

Simple vs. complicated

This is the precept by which I have lived: Prepare for the worst; expect the best; and take what comes.

— Hannah Arendt

Ética

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Love vs. politics

Love, by its very nature, is unworldly, and it is for this reason rather than its rarity that it is not only apolitical but anti-political, perhaps the most powerful of all anti-political human forces.

— Hannah Arendt

Emoções

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Freedom vs. tyranny

No cause is left but the most ancient of all, the one, in fact, that from the beginning of our history has determined the very existence of politics, the cause of freedom versus tyranny.

— Hannah Arendt

Política

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A arte e a vida

Pôs-se a andar na direcção de El Idilio, da sua choça e dos seus romances, que falavam do amor com palavras tão bonitas que às vezes lhe faziam esquecer a barbárie humana.

— Luis Sepúlveda, in O Velho que Lia Romances de Amor

Para além da beleza da história, este livro de Sepúlveda fez-me pensar no poder da escrita, da criação. Em cem páginas podemos ir do Big Bang ao fim do Tempo, ou seguir com todo o detalhe a perseguição de uma onça; entrar num barco e correr atrás do maior peixe do mundo, ou navegar em sonhos no mar de jade que Wang-Fô inventou. Há momentos de magia, como ler A Condição Humana no comboio, de noite; olhar para o vazio lá fora e ter a sensação de vogar pelo espaço, por toda a eternidade, desde sempre e para sempre; sentir a arte arrebatadora das palavras de Mann, Dumas ou Joyce. Não pode haver infelicidade, quando há imaginação: “um poder de sonho sôfrego de me entreter”. Basta fechar os olhos e tudo acontece.

Arte

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Sabedoria

Muitas vezes ouvira dizer que com os anos chega a sabedoria, e ele esperara, confiando em que tal sabedoria lhe oferecesse o que mais desejava: ser capaz de conduzir o rumo das recordações e não cair nos laços que estas frequentemente armavam.

— Luis Sepúlveda, in O Velho que Lia Romances de Amor

Lembro-me de ser pequeno e olhar os adultos, pensando que tudo aquilo viria naturalmente. E até vem, mas não de uma forma imediata e visível; é mais como esta bela metáfora do tempo:

O tempo – mas não aquele que medem os relógios de estação, cujos ponteiros avançam aos saltos, de cinco em cinco minutos, mas sim o indicado por relógios pequeninos, cujo movimento de agulhas permanece imperceptível, ou o tempo que a relva leva para crescer, sem que nenhum olho o perceba, apesar de ela o fazer constantemente, o que um belo dia se torna um facto inegável.

— Thomas Mann, in Montanha Mágica

O que um belo dia se torna um facto inegável. Bem rugido, tigre. Havia também aquele ditado: o carácter revela-se nas grandes ocasiões, mas forja-se nas pequenas. A sabedoria… Sábio era Larry:

‘What are you going to do with all this wisdom?’
‘If I ever acquire wisdom I suppose I shall be wise enough to know what to do with it.’

— Somerset Maugham, in The Razor’s Edge

Razão

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Go directly to Hell; do not pass Go; do not collect $200

Mas o que me parece ser de deplorar, é que vejo alguns insensatos e estultos idólatras, os quais… imitam a excelência do culto do Egipto; e que procuram a divindade, de que não têm razão alguma, nos excrementos de coisas mortas e inanimadas; que com tudo isto troçam não somente desses divinos e avisados cultores, mas também de nós… e o que é pior, com isto triunfam, vendo os seus loucos rituais em muita reputação… – Que não te dê isto enfado, ó Momo, disse Ísis, porque os fados ordenaram a vicissitude das trevas e da luz. – Mas o mal, respondeu Momo, é que eles tomam como certo que estão na luz.
(Giordano Bruno, Spaccio della bestia trionfante, 3)

— Umberto Eco, in O Pêndulo de Foucault

É verdade que essa certeza pode ser tomada como arrogância, mas não chega a incomodar se houver boa fé. Lembro-me de ter sido abordado por uma testemunha de Jeová, há uns anos; uma senhora idosa, de gestos lentos e olhar bondoso. Perguntou-me se eu acreditava e respondi que não, com toda a candura do mundo. Contemplou-me com uma expressão de simpatia triste, mesclada de sincero desespero pela perdição do Outro, que achei tocante. Claro que também há o outro lado; a senhora que me ofereceu um panfleto de Deus, há cerca de um mês (o percurso da estação de comboios até minha casa é uma autêntica estrada da Salvação), com maus modos e a terrível exortação: “Leia bem para ver se compreende”. Sim, também há espécimes bastante desagradáveis; e no entanto, por respeito aos outros, aos que ajudam e amam e curam, tudo se esquece e tudo se perdoa. Poderia ser a superioridade dos pequenos, como no Orgulho de Florbela Espanca, ou de António Aleixo:

Se puder’s estar sereno
No lugar onde estão aqueles
Que te julgam mais pequeno
Serás maior do que eles.

Mas porquê a ilusão de ser maior? É futilidade, perda de tempo. Larry tem razão, mais uma vez. I don’t want to tell anyone in the world to go to hell. Se for caso disso, eles encontram o caminho, não precisam de ajuda.

Livre

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Invejo

Invejo – mas não sei se invejo – aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.

Que há-de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.

Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao fazê-la, o pensamento é livre, e todos os príncipes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Croché das coisas…Intervalo…Nada.

De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo… Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter… Uma vontade morta e uma reflexão que a embala, como a um filho vivo… Sim, croché…

— Bernardo Soares

Meta

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Episódios

Cadeira de Microbiologia, no primeiro ano da Faculdade, sobre vírus, bactérias e fungos. Estudávamos em casa de uma colega, e a minha tarefa era resumir o capítulo sobre vírus. Na véspera do exame, já de madrugada, estava sentado no quintal, em silêncio (ça va sans dire); de repente virei-me para um amigo e disse:

– Só duas coisas me preocupam. Não sei nada sobre bactérias e não sei nada sobre fungos.

Ele não me conhecia bem e ficou inquieto por um segundo (mania que as pessoas têm de me levar a sério), mas depois passou.

É curioso. Sempre apreciei o universal que se esconde em todo o caso particular pessoal e profundo, mas não há nada como a idiossincrasia da experiência própria. No fundo, gostar de arte talvez seja um pouco como misturar essas vivências, e construir uma memória partilhada nessa saudável confusão.

“Sim”, disse Belbo, “mas o problema não é o de saber se estes são melhores ou piores que os outros que vão aos santuários. Estava a perguntar-me a mim mesmo quem somos nós afinal. Nós que consideramos Hamlet mais real que o nosso porteiro.”

— Umberto Eco, in O Pêndulo de Foucault

Humor

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Luta

– Assim está bem, passarinho – animava-me Elvira. – Há que dar muita guerra. Com os cães raivosos ninguém se atreve, pelo contrário aos mansos, dão-se pontapés. Há que lutar sempre.

— Isabel Allende, in Eva Luna

Faz lembrar a quadra de António Aleixo:

Faz-te lobo traiçoeiro
Inteligente e astuto…
Se dás a ver que és cordeiro,
Não vives mais um minuto.

Não são como o pai de Agnès, condenado de antemão.

Que nome dar a esta atitude do pai? Cobardia? Não. Os cobardes têm medo de morrer e, para sobreviverem, sabem lutar com ferocidade. Nobreza? Sem dúvida, se ele tivesse agido assim em atenção ao próximo. Mas Agnès não acredita nessa motivação. Que significava nesse caso a atitude do pai? Ela não sabia. Só uma coisa lhe parecia certa: num navio que se afunda e onde é preciso lutar para arranjar lugar num salva-vidas, o pai estaria de antemão condenado.

— Milan Kundera, in Imortalidade

Suponho que a virtude esteja no meio, com a suave indiferença de Larry:

‘You can’t think what a comfort it’s been to me to think that if I wanted to I could tell anyone in the world to go to hell.’

‘But I don’t want to tell anyone in the world to go to hell, and if I did the lack of a bank balance wouldn’t prevent me.’

— Somerset Maugham, in The Razor’s Edge

Ética

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Hatred

There were many strange things taking place, but the strangest of all, to Clevinger, was the hatred, the brutal, uncloaked, inexorable hatred of the members of the Action Board, glazing their unforgiving expressions with a hard, vindictive surface, glowing in their narrowed eyes malignantly like inextinguishable coals. Clevinger was stunned to discover it. They would have lynched him if they could. They were three grown men and he was a boy, and they hated him and wished him dead. They had hated him before he came, hated him while he was there, hated him after he left, carried their hatred for him away malignantly like some pampered treasure after they separated from each other and went to their solitude.

(…)

Clevinger recoiled from their hatred as though from a blinding light. These three men who hated him spoke his language and wore his uniform, but he saw their loveless faces set immutably into cramped, mean lines of hostility and understood instantly that nowhere in the world, not in all the fascist tanks or planes or submarines, not in the bunkers behind the machine guns or mortars or behind the blowing flame throwers, not even among all the expert gunners of the crack Hermann Goering Antiaircraft Division or among the grisly connivers in all the beer halls in Munich and everywhere else, were there men who hated him more.

— Joseph Heller, in Catch-22

Emoções

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