January 2006

… e a terra

«Mas um velho, d’aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só d’experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

– «Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cüa aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

«Dura inquietação d’alma e da vida
Fonte de desemparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinas e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

«A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
D’ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

«Mas, ó tu, geração daquele insano
Cujo pecado e desobediência
Não somente do Reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano,
Da quieta e da simpres inocência,
Idade d’ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e d’armas te deitou:

«Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome, esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidade :
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la Quem a dá:

«Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pola de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?

«Deixas criar às portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe;
Buscas oincerto e incógnito perigo
Por que a Fama te exalte e te lisonje
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia.

«Oh, maldito o primeiro que, no mundo,
Nas ondas vela pôs em seco lenho!
Dino da eterna pena do Profundo,
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!
Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora ou vivo engenho
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória!

«Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras (grande engano!).
Quanto milhor nos fora, Prometeu,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos, que a movera!

«Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitector co filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte! Estranha condição!»

— Luis de Camões, in Os Lusíadas

Política

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O Céu…

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

— Fernando Pessoa, in Mensagem

Arte

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Estranheza, estreiteza, certeza

Being in politics is like being a football coach. You have to be smart
enough to understand the game and dumb enough to think it’s important.

— Senator Eugene McCarthy

É engraçado ver os problemas a que os outros dão importância e que a nós não dizem nada. “Como pode? Como pode?!”, dizia Radamanto:

O que é um analfabeto funcional? É alguém que aprendeu a escrever e não sabe escrever, é isso? É alguém que “sabe e não sabe” escrever? Analfabeto funcional é tipo física quântica?

Como pode? Como pode?!
É por esse tipo de coisa que eu perco o sono.

— Radamanto, in Wunderblogs

Casaubon fazia música:

Basta não acreditar nelas, para que duas ideias – ambas falsas – possam colidir criando um bom intervalo ou um diabolus in musica. Não respeitava as ideias sobre as quais outros apostavam a vida, mas duas ou três ideias que eu não respeitava podiam criar melodia.

— Umberto Eco, in O Pêndulo de Foucault

Mas o que pode por vezes tornar-se incómodo não é a diversidade, obviamente; é, pelo contrário, a unidade daqueles para quem o que lhes importa tem obrigatoriamente de ser vital para todos. Milan Kundera falava deles na Imortalidade, Larry libertava-se do seu jugo no Fio da Navalha e Umberto Eco divertia-se: “Não é que lhes interesse o que a mim não me interessa, e vice-versa. É que não concebam que haja alguém a quem não interesse. Não conseguem compreender a Diversidade dos Mundos Possíveis. Nunca o compreenderiam, mesmo se vissem as minhas antenas implantadas nas escamas verdes da zona occipital” (citação muito deformada, de memória, dos Segundos Diários Mínimos).

Razão

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Perder

Se de vencer for capaz,
É sempre grande quem vença;
Faz p’ra si o bem que pensa,
Mas não pensa o mal que faz.

— António Aleixo, in Este livro que vos deixo

Quando li esta quadra pela primeira vez, pareceu-me miserabilista; se tiver que haver vencedores e perdedores, o que se há-de fazer? Así es la vida. E todavia, se pensarmos no mal que fazemos ao ganhar, podemos descobrir felicidade até na derrota. Quem tiver uma constituição robusta e resistir com indiferença à adversidade não tem de se preocupar em ganhar ou perder, e pode mesmo afastar-se para as margens e assistir com alegria aos triunfos alheios.

Livre

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Transcend

‘The New History of Cephallonia’ was proving to be a problem; it seemed to be impossible to write it without the intrusion of his own feelings and prejudices. Objectivity seemed to be quite unattainable, and he felt that his false starts must have wasted more paper than was normally used on the island in the space of a year. The voice that emerged in his account was intractably his own; it was never historical. It lacked grandeur and impartiality. It was not Olympian.

— Louis de Bernières, in Captain Corelli’s Mandolin

Meta

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Aww… Boom!

The humor in Captain Corelli’s Mandolin reminds me of that in Heller’s Catch-22. The style is loose and the punchline is usually some surprising turn of events. On a related note, what is it with these writers and the idea of blowing animals to smithereens?

‘We want the cannon, we want the cannon.’

‘What do you want me to shoot?’

(…)

‘I have an old donkey with the spavins. I hate to part with an old friend, but really she’s useless. She just eats, and she falls over when I load her up. She’d make a good target, it would take her off my hands, and it would make a terrific mess.’

— Louis de Bernières, in Captain Corelli’s Mandolin

A few pages back, Mussolini had shot a cat:

I shouldn’t have to look at all this blood and mess. Get someone to clear it up, I don’t feel well. What do you mean it’s not dead yet? Take it out and wring its neck. NO, I DON’T WANT TO DO IT MYSELF. Do you think I am a barbarian or something?

Humor

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White lies

Been hacking his way round a golf-course, no doubt. Damn stupid game, in my opinion. I could understand it if one was trying to hit rabbits or intercept the odd partridge. You can’t eat a hole-in-one, can you? You can’t draw the entrails of a good putt.

Ah, Galeazzo, how good to see you. Do come in. (…) Been playing golf? I thought so. Wonderful game, so fascinating, such a challenge, as much intellectual as it is physical, I understand. I wish I had time for it myself.

— Louis de Bernières, in Captain Corelli’s Mandolin

Ética

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Alchemy

I would find someone to love, and I would be ennobled by this love. (…) I would have someone to impress, someone whose admiration would give that which I cannot give myself; esteem and honour. I would dare to die for him, and if I died I would know that I was dross which some inscrutable alchemy had transmuted into gold.

— Louis de Bernières, in Captain Corelli’s Mandolin

Naptha, from the Magic Mountain, associated alchemy and the idea of transmutation to the tomb. It is curious to see it here in a similar context, but stemming from love. The thought of having someone to impress, on the other hand, links with one of Kundera’s characters (Franz, in the Unbearable Lightness of Being?), who lived as if he was being watched by her all the time. It is not such a trivial idea, at least for me, on reflection; to embrace it, one must have already been emancipated from the notion of impressing the whole human race.

Emoções

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Isn’t it ironic?

Didn’t he despise Liberals, Communists and Parliamentarianism, just as did Franco, Salazar, Hitler and Mussolini? (…) Didn’t he denounce the plutocracy?

(…)

Wasn’t it an irony that nowadays he could rely only upon the British – the Parliamentarian, Liberal, democratic, plutocratic British?

— Louis de Bernières, in Captain Corelli’s Mandolin

Política

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Como crianças

O povo – por ser criança –
Quer vingança, porque ignora
Que a sua vida piora
Quanto mais queira vingança.

— António Aleixo, in Este livro que vos deixo

Arte

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