February 2006

Aes triplex *

* Triplo bronze

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

— Florbela Espanca

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Aes triplex *

* Triplo bronze

… mesmo nos momentos mais perigosos, vejo o cómico da situação e não posso deixar de me rir.

— Anne Frank, in O Anexo

Humor

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Aes triplex *

* Triplo bronze

Abraracourcix só tem medo de uma coisa: que o céu lhe tombe na cabeça, mas como ele próprio diz: «amanhã não será a véspera desse dia!»

— Uderzo & Goscinny

Ética

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Fingimento

Ao Vento

O vento passa a rir, torna a passar,
Em gargalhadas ásperas de demente;
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há-de rir, se há-de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim, sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amar,
A tua voz tortura toda a gente!…

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim!… Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário,
E a gente andar a rir pela vida fora!!…

— Florbela Espanca

Anne Frank recriminava-se pelo fingimento contrário, no seu diário:

Vivi momentos difíceis. Mas não os vive toda a gente da minha idade? Representei muitas vezes uma comédia mas nem sequer tive consciência disso. Sentia-me só, é verdade, mas nunca verdadeiramente desesperada. Devo ter vergonha e muita vergonha!

É a atracção pelos extremos, exaltação de uma ventura fictícia ou exagero do infortúnio, como afundar-se num pantâno com satisfação, pelo prazer de experimentar o sentimento reconfortante do absoluto. Settembrini poderia dizer que é a morte, “porque a morte dissolve e liberta, porque é a libertação; mas não a libertação do mal, e sim a libertação pelo mal. Dissolve a ética e a moralidade, liberta da disciplina e da moderação, liberta para a volúpia”.

Emoções

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Of the people, by the people, for the people

The Gettysburg Address

Four score and seven years ago our fathers brought forth, upon this continent, a new nation, conceived in Liberty, and dedicated to the proposition that all men are created equal.

Now we are engaged in a great civil war, testing whether that nation, or any nation, so conceived, and so dedicated, can long endure. We are met here on a great battlefield of that war. We have come to dedicate a portion of it as a final resting place for those who here gave their lives that that nation might live. It is altogether fitting and proper that we should do this.

But in a larger sense we can not dedicate — we can not consecrate — we can not hallow this ground. The brave men, living and dead, who struggled, here, have consecrated it far above our poor power to add or detract. The world will little note, nor long remember, what we say here, but can never forget what they did here. It is for us, the living, rather to be dedicated here to the unfinished work which they have, thus far, so nobly carried on. It is rather for us to be here dedicated to the great task remaining before us — that from these honored dead we take increased devotion to that cause for which they here gave the last full measure of devotion — that we here highly resolve that these dead shall not have died in vain; that this nation shall have a new birth of freedom; and that this government of the people, by the people, for the people, shall not perish from the earth.

– Abraham Lincoln

Política

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Vento

“Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?”

“Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?”

“Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.”

“Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.”

— Alberto Caeiro

Arte

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Thou canst never return

Quem explora os limites do conhecimento sujeita-se à angústia da incerteza, como flutuar em águas profundas sem um ponto de apoio. A PCR, polymerase chain reaction, é uma técnica que permite criar muitas cópias de segmentos de DNA; conhecida há muitos anos, os seus resultados são seguros e os conceitos em que se baseia consolidaram-se na minha mente. Senti-me, porém, a flutuar, ao ler um artigo sobre uma nova técnica de Real-Time PCR que permite distinguir várias espécies de Plasmodium, numa única reacção, através da análise da curva de melting. Do abstract:

We developed and used a real-time PCR assay to detect and distinguish four Plasmodium spp. that cause human disease by using a single amplification reaction and melting curve analysis. Consensus primers were used to amplify a species-specific region of the multicopy 18S rRNA gene, and SYBR Green was used for detection in a LightCycler instrument. (…) Melting curve analysis based on nucleotide variations within the amplicons provided a basis for accurate differentiation of Plasmodium falciparum, P. vivax, P. ovale, and P. malariae.

— Mangold et al, Real-Time PCR for Detection and Identification of Plasmodium spp.

Não é que os fundamentos sejam extraordinariamente complexos, ou difíceis de apreender. No fundo, o que eu queria dizer é que a inovação implica muitas vezes sair da nossa zona de conforto e mergulhar num oceano de dúvidas. Ou num pântano, se a coisa correr mal.

[C]onsider them both, the sea and the land; and do you not find a strange analogy to something in yourself? For as this appalling ocean surrounds the verdant land, so in the soul of man there lies one insular Tahiti, full of peace and joy, but encompassed by all the horrors of the half known life. God keep thee! Push not off from that isle, thou canst never return!

— Herman Melville, in Moby Dick

Razão

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Santa miséria

Há muitos anos atrás estava em casa de uma colega, com um grupo de amigos; ouvia as conversas, sentado num canto, quando o pai dela, à propos de bottes, disse algo como: “Paulo, não é nada de pessoal, mas não gosto de pessoas tristes.” Isto vindo de um homem que um dia (talvez nesse mesmo dia, não me lembro) lançou uma granada de fumo para o meio da sala, por diversão. (Admito que não sou assim tão divertido.) A granada não funcionou, porque não tinha detonador, mas achei interessante porque ele disse que se podia transformar numa granada comum com um anel de fragmentação. Mais tarde li em qualquer lado que se usavam mesmo anéis (os Splitterringe) para causar mais estilhaços, embora nunca tenha encontrado referências a esta técnica com granadas de fumo. Tudo isto é muito bélico, mas fez-me pensar na capacidade que o Homem tem de conceber todo o tipo de objectos fantásticos, e sem dúvida que a guerra, com tudo o que tem de mau, estimula a imaginação. Como dizia Thomas Mann, no Doutor Fausto, acerca dos foguetes V2: “a bomba voadora, engenho digno de admiração, tal como somente a santa miséria pode sugerir ao génio de um inventor.” O que nos leva de volta à tristeza inicial.

Livre

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Tempestade interior

Por vezes as histórias parecem adquirir uma existência independente do autor, mas ocorre-me pensar no que passava pela cabeça de quem escreveu, e no que ele terá vivido para imaginar certas cenas e reflexões. Releio Os Miseráveis e vejo esta passagem, a morte de Eponina:

– Se quer que lhe diga, Sr. Mário, eu julgo que andava um bocado apaixonada pelo senhor.

Ela tentou ainda sorrir e expirou.

Quase no fim do romance, Victor Hugo descreve o contraste entre a serenidade aparente e a ansiedade profunda:

Mas vemo-los passar e repassar, e parece-nos que nada os distingue dos outros homens. Porque ninguém sabe que aquele infeliz tem dentro de si mesmo uma horrorosa dor que o mina, que vive dentro dele, e que com os seus mil dentes o lacera e mata. Apresenta-se sereno, mas é profundo.

Será pura fantasia ou reflecte experiências pessoais intensas? Alguém dizia que escrever é transformar os piores momentos da vida em dinheiro; é verdade que muita da arte que vemos é um rosário de desgraças, talvez por ser fácil viver a alegria sem necessidade de explicá-la, enquanto o sofrimento tem de ser superado. Poder-se-ia dizer que o artista entretém a infelicidade; tenta distrai-la, na esperança de que ela se esqueça de o atormentar. Enquanto se concentra nos seus pormenores, moldando-a nas mais diversas formas, preparando-se para a apresentar ao mundo, liberta-se dela e já é feliz. Transformar a dor em beleza é sublime, é a transmutação do chumbo em ouro, a pedra filosofal.

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Hungry?

After an earthquake, rescue crews arrived from various parts of the world, including America:

An American officer with a phrasebook wandered about, repeating ‘Hungry?’ with an insufficiently interrogative intonation, and pointing to his mouth to reinforce the point, until some villagers took pity on him and made him a banquet with what little they could find.

— Louis de Bernières, in Captain Corelli’s Mandolin

Humor

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