O senhor não me perguntou se eu era amante da música? Bem, se o senhor disse «amante da música» (Hans Castorp não se lembrava de ter-se exprimido assim) a expressão não está mal escolhida, comporta um resquício de frivolidade afectuosa.
— Thomas Mann, in Montanha Mágica
Gosto muito da frase entre parênteses; são estes pormenores que criam imagens que definem as personagens. Settembrini é o literato, seguro de si, exprimindo-se com eloquência e estilo. Hans aprecia a beleza das palavras, e quase que se pode sentir a estranheza com que ouve ser-lhe atribuída aquela expressão, «amante da música». Este discurso do italiano critica a música por ser o “não-formulado, o equívoco, o irresponsável, o indiferente”, mas o gozo da arte também é feito desses momentos em que se consegue estabelecer uma cumplicidade com o autor precisamente através do “não-formulado”.
Nas quadras que a gente vê,
Quase sempre o mais bonito,
Está guardado para quem lê
O que lá não está escrito.
— António Aleixo, in Este livro que vos deixo
Compreender um olhar discreto, um gesto despercebido, um toque subtil… saber que tudo aquilo foi engendrado por uma mente humana, para nosso deleite, é quase como decifrar um código secreto em velhos papéis amarelecidos pelo tempo, em busca de pistas para encontrar um tesouro, e já seguimos o mapa com as setas e as cruzes, entusiasmados com a expectativa do prémio, mas ainda mais com o prazer da investigação. É um gozo infantil, da infância que os anos “não podem nem devem apagar”, e que é a antítese do “decrépito e baboso desejo” dos diabólicos de Umberto Eco. No meio, com arte e pela arte, provando que esta se encontra em geral equilibrada entre os extremos, fica Adrian com as suas risadas:
…ouvia-as frequentemente, quando me encontrava num teatro ou numa sala de concertos na sua companhia, e o chocava algum truque artístico, um procedimento engenhoso, não notado pela multidão, no íntimo da estrutura musical, ou uma fina alusão psíquica no diálogo de um drama. Naqueles dias, isso não condizia ainda com a sua idade, mas o riso era o mesmo de um homem adulto; uma leve exalação do ar pela boca e pelo nariz, acompanhada de um cabeceio rápido, frio, até desdenhoso, que quando muito significava: «Nada mal! Engraçado, curioso, divertido!» Enquanto isso os seus olhos permaneciam singularmente atentos, como que procurando algo ao longe, e a sua escuridão matizada de clarões metálicos tornava-se mais e mais tenebrosa.
— Thomas Mann, in Doutor Fausto