O teatro Rivoli, no Porto, foi ocupado por artistas indignados com a futura gestão privada deste espaço. Sempre fui muito céptico em relação aos subsídios à cultura; são úteis na medida em que aumentam a diversidade da oferta, mas potenciam a promiscuidade entre o poder político e a arte, e em muitos casos acabam por financiar um divertimento para os ricos, à custa dos pobres. Tenho relutância em aceitar que o público deva ser encaminhado numa determinada direcção, como se não tivesse discernimento, e mesmo aceitando esta premissa não é certo que os subsídios sejam uma solução eficaz, especialmente se se evitar usar o número de espectadores como critério para a sua atribuição. Este foi o meu texto preferido sobre a polémica recente, humorístico e pertinente:
A tarefa sempre inacabada de educar os públicos
Se calhar chegou o momento de se avaliar o impacto da política de formação de públicos que os defensores da cultura subsidiada tanto defendem. Ao longo dos anos foram delapidados milhões em subsídios. Já seria altura de aparecerem resultados. No entanto, não se percebe como é que determinadas actividades culturais poderão contribuir para a formação de públicos se não têm público. Se numa região com cerca de 1.5 milhões de habitantes uma peça de teatro não consegue ter mais que 30 espectadores quanto tempo é que se espera que demorará a formação de públicos? E o maior problema é que os 30 são sempre os mesmos, que vão a todas, pelo que o contributo para a educação dos públicos é nulo. Não vale a pena gastar tanto dinheiro para educar os mesmos 30 ano após ano.
— João Miranda, in Blasfémias