November 2006

Fim de semana musical

No sábado fui ver o Quebra Nozes, um bailado natalício que é um conto de fadas; o mais extraordinário na dança é a forma como os corpos se libertam do seu peso, com movimentos fluidos, pairando no ar.

No domingo ouvi a quinta sinfonia de Beethoven, tocada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa; o maestro, Álvaro Cassuto, era idoso mas encheu o palco com uma energia irresistível. Nunca apreciei muito a artificialidade dos aplausos neste tipo de concertos, mas aqui foi inteiramente merecido; ou talvez a melhor homenagem que se possa prestar a um artista seja um silêncio extático e profundo.

Arte

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Reason

REASON, v.i.
To weight probabilities in the scales of desire.

REASON, n.
Propensitate of prejudice.

REASONABLE, adj.
Accessible to the infection of our own opinions. Hospitable to persuasion, dissuasion and evasion.

— Ambrose Bierce, in Devil’s Dictionary

Razão

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Felicidade

Deixá-lo ser feliz: deixá-lo. Calisto Elói, aquele santo homem lá das serras, o anjo do fragmento paradisíaco do Portugal velho, caiu.

Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem, homem como quase todos os outros (…)

Na qualidade de anjo, Calisto, sem dúvida, seria mais feliz; mas, na qualidade de homem a que o reduziram as paixões, lá se vai concertando menos mal com a sua vida.

Eu, como romancista, lamento que ele não viva muitíssimo apoquentado, para poder tirar a limpo a sã moralidade deste conto.

— Camilo Castelo Branco, in A Queda dum Anjo

Este final brinca com a pretensão de moralismo dos livros, mas não deixa de expressar uma ideia que me é muito cara: a felicidade não se procura, vive-se; encontramo-la sempre, sejam quais forem os caminhos que seguirmos, ou as escolhas que fizermos, porque ela não se esconde no fim de uma via única e definida; está presente em tudo o que nos rodeia, desde o objecto mais insignificante ao sentimento mais profundo, se soubermos ver.

Livre

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Devil’s Dictionary

The Devil’s Dictionary, by Ambrose Bierce, is addressed to those “enlightened souls who prefer dry wines to sweet, sense to sentiment, wit to humor and clean English to slang”. This book is cynical and mocks many ideas that are dear to me, and yet I find it extremely amusing.

HISTORY, n.
An account mostly false, of events mostly unimportant, which are brought about by rulers mostly knaves, and soldiers mostly fools.

Livre

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Primus inter pares

Os autores do Gato Fedorento são os meus comediantes preferidos, em Portugal; gostei do programa que lançaram recentemente, “Diz que é uma espécie de magazine” (excepto o nome; e o genérico), mais estruturado do que uma simples série de sketches, embora considere algum do seu humor previsível – diria que demasiado académico, – além de não serem apresentadores sólidos. Fizeram-me ver com novos olhos (olhos de noviço…) o Late Night with Conan O’Brien, apresentado pelo meu comediante favorito; o contraste realça o profissionalismo do gigante da NBC. Nunca tinha percebido como deve ser difícil aguentar um programa sem hesitações ou quebras de ritmo, do princípio ao fim, diariamente. Conan O’Brien foi alvo de críticas devastadoras, quando começou:

We debuted on September 13, 1993 and I was happy with our effort. I felt like I had seized the moment and put my very best foot forward. And this is what the most respected and widely read television critic, Tom Shales, wrote in the Washington Post: “O’Brien is a living collage of annoying nervous habits. He giggles and titters, jiggles about and fiddles with his cuffs. He had dark, beady little eyes like a rabbit. He’s one of the whitest white men ever. O’Brien is a switch on the guest who won’t leave: he’s the host who should never have come. Let the Late show with Conan O’Brien become the late, Late Show and may the host return to Conan O’Blivion whence he came.” There’s more but it gets kind of mean.

— Conan O’Brien, in a Harvard Commencement Speech

Sete anos depois, produziu isto:

And remember that the story is never over. If it’s all right, I’d like to read a little something from just this year: “Somehow, Conan O’Brien has transformed himself into the brightest star in the Late Night firmament. His comedy is the gold standard and Conan himself is not only the quickest and most inventive wit of his generation, but quite possibly the greatest host ever.”

Ladies and Gentlemen, Class of 2000, I wrote that this morning, as proof that, when all else fails, there’s always delusion.

— Conan O’Brien, in Harvard Commencement Speech

Claro que é mesmo verdade.

Meta

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Buraco negro

Car, moi qui ne pensais plus qu’à ne jamais rester un jour sans voir Gilberte (au point qu’une fois ma grand-mère n’étant pas rentrée pour l’heure du dîner, je ne pus m’empêcher de me dire tout de suite que si elle avait été écrasée par une voiture, je ne pourrais pas aller de quelque temps aux Champs-Élysées ; on n’aime plus personne dès qu’on aime).

— Marcel Proust, in À La Recherche du Temps Perdu: Du côté de chez Swann

Humor

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Tutear

“E você, o que faz?” perguntara-me uma noite em que estávamos ambos encostados ao canto extremo do balcão de zinco, apertados por uma multidão própria das grandes ocasiões. Era o período em que todos se tratavam por tu, os estudantes aos professores e os professores aos estudantes. Para não falarmos da população do Pilade: “Paga-me um copo”, dizia o estudante de anorak ao chefe de redacção do grande diário. Parecia que se estava em São Petersburgo nos tempos do jovem Sklovsky. Todos Maiakovsky e nenhum Zhivago. Belbo não se subtraía ao tu generalizado, mas era evidente que o impunha por desprezo. Tratava por tu para mostrar que respondia com vulgaridade à vulgaridade, mas que existia um abismo entre tomar confiança e ter confiança. Vi-o tratar por tu com afecto, ou com paixão, poucas vezes e poucas pessoas, Diotallevi, alguma mulher. Quem ele estimava, sem conhecer há muito tempo, tratava por você. Assim fez comigo durante todo o tempo que trabalhámos juntos, e eu apreciei o privilégio.

— Umberto Eco, in O Pêndulo de Foucault

Ética

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Un amour de Swann

Este capítulo é uma história dentro da história, de tal forma que me esqueci que o narrador é participante. A constância de Tonio Kroger descreve muito bem, num parágrafo, o ocaso do amor, mas foi o próprio Thomas Mann que defendeu a minúcia da narrativa, o que Proust faz com mestria. A verdade é como um conjunto de círculos concêntricos, e o romance ideal partiria de um dos extremos, a síntese perfeita ou a exposição exaustiva, para atingir o outro.

Cette nécessité d’une activité sans trêve, sans variété, sans résultats, lui était si cruelle qu’un jour, apercevant une grosseur sur son ventre, il ressentit une véritable joie à la pensée qu’il avait peut-être une tumeur mortelle, qu’il n’allait plus avoir à s’occuper de rien, que c’était la maladie qui allait le gouverner, faire de lui son jouet, jusqu’à la fin prochaine. Et en effet si, à cette époque, il lui arriva souvent sans se l’avouer de désirer la mort, c’était pour échapper moins à l’acuité de ses souffrances qu’à la monotonie de son effort.

(…)

Et avec cette muflerie intermittente qui reparaissait chez lui dès qu’il n’était plus malheureux et que baissait du même coup le niveau de sa moralité, il s’écria en lui-même : “Dire que j’ai gâché des années de ma vie, que j’ai voulu mourir, que j’ai eu mon plus grand amour, pour une femme qui ne me plaisait pas, qui n’était pas mon genre ! ”

— Marcel Proust, in À La Recherche du Temps Perdu: Du côté de chez Swann

Emoções

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Uma forma normal de anormalidade

Estava a tomar o pequeno-almoço, com a televisão sintonizada num canal de notícias, que ia seguindo distraidamente, e li algo como “Ministro libanês assassinado em breve”; não prestei atenção, mas de repente atingiu-me a enormidade do título e olhei de novo; afinal era “ministro libanês assassinado em Beirute”. Foi um simples erro de leitura, mas é verdade que convivemos sem pestanejar com situações extraordinárias. A paródia do The Onion ilustra bem esta ideia; quando foi anunciada a sentença de morte de Saddam Hussein, um comentário no American Voices foi: “I sure hope this doesn’t lead to violence in Iraq”; o título de uma notícia recente reza: “CNN Renews This Week At War For Next Eight Seasons”.

“E é a este texto que se atêm os sequazes da OTO, ainda hoje, e às suas quatro edições, a primeira das quais antecedeu em nove meses o rebentar da guerra dos Balcãs, a segunda em nove meses a deflagração da guerra sino-japonesa, a terceira foi nove meses antes das matanças da guerra civil espanhola…”

Não pude evitar fazer figas com os dedos.

— Umberto Eco, in O Pêndulo de Foucault

A guerra é a suprema manifestação da infantilidade humana; não pela eventual irracionalidade ou inconsciência, mas por ser simples. A política externa é um pátio de escola.

O homem quer matar terroristas? Kerry diz que mata mais ainda. Bush quer prender Osama? Kerry confessa que não pensa noutra coisa. (…) E o vencedor das próximas presidenciais (…) será aquele que convencer os americanos, não com propostas ou promessas – mas com níveis de testosterona. No fundo, talvez seja isto que atrai e repele na política americana: no bullshit. Coisa de homens. Biologia é destino.

— João Pereira Coutinho, in O Sítio

Política

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Melancholy

Gosto dos céus de Munch. Esta imagem está na contracapa de Tonio Kroger; só falta o turbilhão interior que justifica a serenidade aparente.

melancholy.jpg

— Edvard Munch, Melancholy

Mais uma vez, o humor de Thomas Mann é subtil mas certeiro.

Und Tonio Kroger fuhr gen Norden. Er fuhr mit Konfort (denn er pflegte zu sagen, daß jemand, der es innerlich so viel schwerer hat als andere Leute, gerechten Anspruch auf ein wenig äußeres Behagen habe)

— Thomas Mann, in Tonio Kroger

Arte

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