Mea culpa

O Confiteor (Confesso) é uma oração engraçada; quase não tem conteúdo, mas isso realça a sua mensagem, que é a admissão de culpa. Numa tira da Mafalda, a Susaninha passou uma noite em branco a ler um livro religioso onde abundava o “mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa”. “Toda a noite a ver se havia alguma hipótese de deitar as culpas para cima de outra pessoa, mas nada”.

Minha culpa

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!…

Sou um verme que um dia quis ser astro…
Uma estátua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor…

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador…

– Florbela Espanca

Até nas quadras que faço
Aos podres que o mundo tem
Sinto que sou um pedaço
Do mesmo podre também

Se com eles me confundo
Pelo mal que no mundo faço
É porque sou um pedaço
Da lama do mesmo mundo

— António Aleixo, in Este livro que vos deixo