January 2007

E sei também que o desejei

O Doutor Fausto tem muitos excertos dignos de nota, mas este foi o primeiro momento de cortar a respiração, e talvez por isso, pelo efeito da surpresa, um dos que mais me marcou:

Sim, monsenhor Hinterpförtner tem razão: estamos perdidos. Com isto quero dizer que a guerra está perdida. Mas esse facto significa mais do que somente uma campanha perdida; significa, na realidade, que nós estamos perdidos, que perdidas estão a nossa causa e a nossa alma, a nossa fé e a nossa história. Tudo se acabou para a Alemanha; acabar-se-á num inominável colapso económico, político, moral e espiritual; em suma, eis o que se esboça. Não quero ter desejado esse desenlace, pois o que nos ameaça são o desespero e a insânia. Não quero nutrir tal desejo, porque a minha compaixão, a minha lastimosa comiseração dedicam-se a este povo infeliz, e quando recordo o seu levantamento e o seu cego fervor, a rebeldia, a erupção, a explosão, a reviravolta, o reinício pretensamente purificador, o renascimento nacional de há dez anos atrás – quando recordo aquele transe aparentemente sagrado, com o qual, na verdade, indicando o seu carácter falaz, já se mesclavam muita rudeza feroz, muita brutalidade ordinária, muito gozo sórdido de violações, torturas e aviltamentos, e que, para quaisquer pessoas clarividentes, já evidenciava os germes desta guerra, de toda esta guerra – quando recordo tudo isso, confrange-se-me o coração em face do formidável investimento de fé, entusiasmo, apaixonada exaltação histórica, efectuado naqueles dias, e que agora deverá esvair-se numa bancarrota jamais igualada. Não, longe de mim ter desejado isto… E todavia tive que desejá-lo, e sei também que o desejei, que hei-de desejá-lo hoje e saudarei o seu advento, por ódio ao celerado desprezo da razão, à pecaminosa renegação da verdade, ao culto vulgar, extasiado, de uma mitologia de cordel, à culposa confusão entre a degeneração actual e aquilo que existia antes, o abuso cabotino e a abjecta venda em liquidação dos genuínos valores antigos, familiares, fiéis, intrinsecamente alemães, à base dos quais sabujos e mentirosos nos prepararam um filtro intoxicante, susceptível de alienar os sentidos.

— Thomas Mann, in Doutor Fausto

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A face do demónio

The prince of darkness is a gentleman.

— William Shakespeare, in King Lear

Nunca tinha sentido esta citação com tanta força como quando li sobre os apaniguados da Aum Shinrikyo. Um abismo separa aquelas pessoas do mundo, mas conseguem discorrer sobre isso com uma serenidade, e até com uma inteligência, perturbadoras. Um deles disse que a seita, depois do atentado, era como o olho de um furacão, a calma no meio da tempestade. Lembro-me de ler uma expressão engraçada (de Kundera?): o excesso de inteligência; dizia-se que um certo grupo de pessoas não era mau, apenas excessivamente inteligente (seriam os comunistas? Daí pensar em Kundera). Pouco importa, quem me apetece citar ao ler Murakami é mesmo Thomas Mann:

Malditos, malditos os corruptores, que mandaram à escola do Diabo uma parcela do género humano originalmente honrada, bem-intencionada, apenas excessivamente dócil e demasiado propensa a organizar a sua vida à base de teorias! Como faz bem amaldiçoá-los, e melhor ainda seria se o anátema brotasse irrestritamente de um peito não obstruído! Mas um patriotismo que ousasse afirmar que o Estado sanguinário, cuja agonia actualmente presenciamos, que, para citar uma expressão de Lutero, «pendurou ao seu pescoço» o peso de crimes incomensuráveis, e que, com os seus apelos berrados, com as suas proclamações aniquiladoras dos direitos do homem, provocou nas multidões arroubos de imensa felicidade, esse Estado sob cujas bandeiras vistosas marchava a nossa juventude, de olhos chispantes, altiva, radiante, firme na fé – um patriotismo, repito, que ousasse afirmar que esse regime tenha sido algo totalmente alheio à natureza do nosso povo, lhe tenha sido imposto, desprovido de raízes no seu íntimo, ia afigurar-se-me mais magnânimo do que consciencioso.

— Thomas Mann, in Doutor Fausto

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Bright side of life

Always look on the bright side of life.
[whistling]
Always look on the light side of life.
[whistling]

If life seems jolly rotten,
There’s something you’ve forgotten,
And that’s to laugh and smile and dance and sing.
When you’re feeling in the dumps,
Don’t be silly chumps.
Just purse your lips and whistle. That’s the thing.
And…

Always look on the bright side of life.
[whistling]
Always look on the right side of life,
[whistling]

For life is quite absurd
And death’s the final word.
You must always face the curtain with a bow.
Forget about your sin.
Give the audience a grin.
Enjoy it. It’s your last chance, anyhow.
So,…

Always look on the bright side of death,
[whistling]
Just before you draw your terminal breath.
[whistling]

Life’s a piece of shit,
When you look at it.
Life’s a laugh and death’s a joke. It’s true.
You’ll see it’s all a show.
Keep ’em laughing as you go.
Just remember that the last laugh is on you.
And…

Always look on the bright side of life.
[whistling]
Always look on the right side of life.
[whistling]
Always look on the bright side of life!
[whistling]
Always look on the bright side of life!
[whistling]
Always look on the bright side of life!
[whistling]
Always look on the bright side of life!
[whistling]
Always look on the bright side of life!
[whistling]
Always look on the bright side of life!
[whistling]
Always look on the bright side of life!
[whistling]
Always look on the bright side of life!
[whistling]

— in Life of Brian

Humor

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The bottom line

Discute-se muito – e com razão – o que é o terrorismo, a guerra justa, o certo e o errado, mas seja em relação aos atentados de Nova Iorque, à barbárie no Iraque, enfim, a tudo o que merece condenação e todavia acontece diariamente, em todo o mundo, por vezes sabe bem ouvir isto:

E, no entanto, tenho de o dizer em voz alta: eles nunca deveriam ter feito o que fizeram. Fosse qual fosse o motivo.

— Haruki Murakami, in Underground

Ética

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Dá-me vontade de chorar

Quase nunca discutíamos. Apesar disso, eu andava muito irritável com a gravidez. Zangava-me com ele pelas coisas mais triviais, e ele nem parecia reparar. Geralmente resolvia a questão a rir-se. Ele era uma pessoa tão boa. E pareceu ficar ainda mais bondoso antes de morrer.

(…)

A única coisa boa é a Asuka. Quando ela disse as primeiras palavras… Um qualquer pequeno gesto, uma comida que ela gosta, lembra-me o meu marido. Estou sempre a dizer à Asuka: «O papá era assim.» Se não lhe disser, ela nunca saberá. Quando a Asuka pergunta: «Onde está o papá?» eu aponto para a fotografia no altar e digo: «Papá, papá.» Ela diz: «Boa noite» à fotografia antes de ir dormir. Dá-me vontade de chorar.

— Haruki Murakami, in Underground

Emoções

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Mirrors

Em Citadelle, Saint-Exupéry criticou aqueles que se limitam a falar mal da sociedade, enjeitando as suas responsabilidades na correcção dos erros que apontam. Murakami rejeita a separação entre nós e eles, a saída fácil para explicar todos os problemas do mundo pela loucura dos que não se conformam.

Não chegaremos a lado algum enquanto os japoneses continuarem a rejeitar o fenómeno da Aum como algo que lhes é completamente estranho, uma presença alienígena observada através de binóculos a partir de uma margem distante. Por mais desagradável que seja esta perspectiva, é importante que os incorporemos, em certa medida, na construção mental a que chamamos nós ou, pelo menos, na sociedade japonesa. Foi certamente assim que o acontecimento foi visto fora do Japão.

— Haruki Murakami, in Underground

Gosto da última frase. É fácil olhar de fora e concluir que o mal foi gerado pelo sistema; não faz sentido fora dele. A atitude perante este dilema – entre responsabilidade individual e comunitária – diz muito do que somos, politicamente.

Ouço a Provedora da Casa Pia dizer que, neste caso da pedofilia, “somos todos [portugueses] responsáveis”.

Eh, pá, desculpem lá, mas eu não sou. Não sou pedófilo. Não tenho conhecimento de que alguém das minhas relações seja. Não sabia da história da Casa Pia até à prisão do Bibi. Vão-me desculpar, mas eu não tenho nada a ver com isto.

(…)

Há responsáveis? Claro. São muitos? Certamente. Mas não são “todos nós”. São (e faço contas de cabeça): os pedófilos; os angariadores; os facilitadores (dentro da casa pia); toda a gente (funcionários da Casa Pia, parentes de pedófilos e das crianças, etc) que soube e calou; os agentes da autoridade que tiveram conhecimento e que abafaram. Haverá mais, não sei.

Agora, eu não sou de certeza. Não me tentem arrastar para isto.

— José Diogo Quintela, in Gato Fedorento

Política

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Ode triunfal

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés – oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram
Pela minh’alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes –
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes –
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.

E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de…,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o! –
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje…)

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

Londres, 1914 – Junho

Álvaro de Campos.

Dum Livro chamado Arco de Triunfo, a publicar.

Junho de 1914 (publicado no Orpheu, nº 1, 1915).

Arte

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Denominadores comuns

Será que os cumprimentos simples, como “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite” existem em todas as línguas? Há quem diferencie o “Boa noite” consoante seja antes de dormir ou para desejar um bom serão. Os japoneses têm uma palavra para anteontem e outra para depois de amanhã; os ingleses não usam uma palavra em nenhum dos casos; os portugueses usam apenas a primeira. Muitos substantivos, verbos e adjectivos, são óbvios e devem surgir onde quer que existam seres humanos, mas nem todos os povos terão necessidade de dizer as mesmas coisas. Qual seria o vocabulário de uma comunidade de cegos, ou de surdos?

Razão

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Are we through?

NAY, WHAT IS MAN himself but an inane blind insect buzzing against a closed window? Instinctively he feels beyond the glass a great light and a warmness. But he is blind and cannot see it; neither can he see that there is ought between him and the light. So he struggles hazily towards it. He may get further away from the light, but nearer than the glass he cannot get. How will Science help him? He may find out the particular roughness and nodosities of the glass, he may get to know that here it is thicker, there thinner, here coarser and there finer: with all this, kind philosopher, how nearer is he to the light? How nearer is he to seeing? And yet I believe that the man of genius, the poet, does somehow struggle through the glass into the outer light; he feels warmth and gladness at being so much beyond all men, but is even he not still blind; is he any nearer to knowing the eternal Truth?

Let me stretch further my metaphor. There are some who move away from the glass on the wrong side, backwards; but finding themselves near no glass shout, beside themselves, “We are through”.

— Fernando Pessoa

Livre

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Wherever your fingers may take you

I learned touch typing a few years ago, because it is useful for someone who spends a lot of time on the computer, but one of the pleasant side effects is that you can write with your eyes closed. It feels good to do that, just as I believe it must be nice to know sign language to be able to talk in silence.

Meta

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