Como ser Deus à paisana. Tu és Deus, andas pela cidade, ouves as pessoas falarem de ti, e Deus para cá e Deus para lá, e que admirável universo é este, e que elegância a gravitação universal, e tu sorris sob os teus bigodes ( tem de se andar com uma barba postiça, ou melhor não, sem barba, porque pela barba reconhecem logo Deus), e dizes para contigo (o solipsismo de Deus é dramático): “Muito bem, este sou eu e eles não sabem.” E dão-te encontrões na rua, se calhar até te insultam, e tu humilde dizes desculpe, e pronto, afinal és Deus e se quisesses, um gesto com um dedo e o mundo ficaria em cinzas. Mas tu és tão infinitamente poderoso que até te permites ser bom.
— Umberto Eco, in O Pêndulo de Foucault
Até te permites ser bom… Frases soltas, sobre o refugo da sabedoria, como escreveu Eco noutra parte do romance – o que ocultámos num lugar, manifestámo-lo noutro, para que possa ser compreendido pela vossa inteligência. Esta frase é muito interessante; substitui a corrupção do poder absoluto pela graça do poder absoluto. Bem fazia Hans Castorp em levantar os braços, como quem diz que há muita coisa escrita, tornando-se difícil discernir o bom e o mau. Saint-Exupéry ia mais longe e misturava o bem e o mal, não num guazzabuglio como o de Naphta, em que eles se confundiam, mas numa complementaridade em que são essenciais um ao outro; além de que, como é sabido, se podem usar as mesmas pedras para construir um templo completamente diferente. No fundo, é a ideia insatisfatória de Larry, n’O Fio da Navalha, e a proposição perigosa do professor de Adrian, no Doutor Fausto.
E que conclusões tiro eu de tudo isto? Ça va sans dire. Direi apenas que a ilusão da corrupção do poder vem apenas do facto de ele ser confundido com coisas que nada têm a ver com o verdadeiro poder. E não é o poder que permite a bondade, mas sim a bondade que proporciona poder. O verdadeiro.