– Idade-Média clássica! Eis uma estranha combinação de palavras.
– Desculpe-me, mas eu admito o conceito do clássico onde ele cabe, quer dizer: cada vez que uma ideia alcança o seu ponto culminante.
— Thomas Mann, in Montanha Mágica
Os Irmãos Karamázov lembram-me constantemente outros livros; entre eles destaco as obras de Thomas Mann: na Montanha Mágica há o prólogo fazendo a apologia do herói, no Doutor Fausto a conversa com o diabo, e em ambos a divulgação das mais recentes correntes científicas e filosóficas, bem como o simbolismo ostensivo. Smerdiakov é o Uriah Heep de Charles Dickens. Aliocha é o herói universal. Pessoa e Kafka bebem na fonte onde o russo se inspirou.
Dir-se-ia que as ideias são como pelotões de soldados que atravessam território inimigo; partiram no início dos tempos e caminharam ao longo dos séculos, perdendo-se alguns pelo caminho e surgindo outros vindos do nada, iniciando de imediato a caminhada para encontrarem o seu ritmo e o seu lugar na História. Ou as ideias são antes como ondas que vêm de longe e batem constantemente contra a terra, moldando-a lentamente; rios e avalanches de conceitos e acontecimentos, nascendo num fio de água ou num floco de neve, ganhando força à medida que atraem novos adeptos; o floco de neve é Kant, ou Nietzsche, de quem os romancistas se tornam intérpretes, para as massas. Ideias como redes infinitas onde existem nodos privilegiados, que se ramificam e produzem milhares de descendentes – Goethe e Mefistófeles, adaptado por Dostoiévski e Mann; Shakespeare e os seus dramas que abrangem o Universo; a Bíblia.
Dostoiévski escreveu antes de Mann, o que pode sugerir uma difusão de ideias no tempo e no espaço. Há mais indivíduos do que gestos, disse Kundera, e inevitavelmente acabam a imitar-se. Thomas Mann não se limitou a copiar; já vi quem o criticasse por ter identificado o beco sem saída da literatura sem ter sido capaz de abrir novos caminhos, mas sempre reconhecendo que foi competente no modo como elevou as velhas formas ao seu expoente máximo (ou “ponto culminante”). Dostoiévski escrevia com emoção; cirandava, repetia-se, era mais espontâneo. Mann criou “monumentos de arte, cuja grandeza transcende todas a normas de criação literária”.
… e assim concluiu em poucas palavras a palestra sobre por que Beethoven não escrevera um terceiro movimento do ópus 111. Bastava, disse ele, que ouvíssemos a obra, para sermos capazes de encontrar nós mesmos a resposta à pergunta. Um terceiro movimento? Um reinício – depois daquele adeus? Impossível! Acontecera que a sonata no segundo, no imenso segundo movimento, havia alcançado o seu fim, um fim sem nenhum retorno. E, ao referir-se «à sonata», não pensava apenas nesta, em dó menor, e sim na Sonata em si, na forma, no género artístico tradicional: ela mesmo tinha sido levada ao seu término, cumprira o seu destino, para além do qual não existia caminho.
— Thomas Mann, in Doutor Fausto