Quando leio ficção, às vezes sinto que tudo aquilo é absurdo; para quê inventar uma história, personagens, fazê-los agir? Quem terá sido o primeiro contador de histórias imaginadas, e como o terão recebido os seus companheiros? Faz-me lembrar novamente o Dr. Katz com a sua ideia do primeiro sarcasmo.
– Vou contar-vos a história do António…
– O António veio da caçada, está a dormir na caverna.
– Não é esse.
– Conheces outro?
– Este não existe.
– Não existe?
… and so on. Este diálogo é um exemplo da justificação de Somerset Maugham, n’O Fio da Navalha, para pôr palavras na boca de personagens: “I want to be read and I think I am justified in doing what I can to make my book readable”. Será que no futuro vai desaparecer essa necessidade de ser lido, recorrendo a artifícios? Daqui a muitas gerações, as nossas obras podem ser vistas como mitologia grega. Sonhos e crenças incompreensíveis de homens primitivos.