February 2009

Diferentes

– Konrád nunca há-de ser um verdadeiro soldado.
– Porquê? – perguntou, assustado, o rapaz.

Mas sabia que o pai tinha razão. O oficial da guarda encolheu os ombros. Fumava, estava sentado com as pernas bem esticadas em frente da lareira e contemplava o fumo do charuto. Com a tranquilidade e a superioridade de um perito disse:

– Porque é uma pessoa diferente.

— Sándor Márai, in As Velas Ardem Até ao Fim

Dostoievski defendeu a caracterização da pessoa diferente com Aliocha, nos Irmãos Karamazov, e a presença destas personagens é constante na literatura; o príncipe d’O Idiota, Larry n’O Fio da Navalha, Adrian Leverkhun, o artista de James Joyce… Na verdade, todos são “diferentes”; há tantas categorias como pessoas, e não apenas duas (ou se forem duas, são ‘eu’ e ‘o resto do mundo’, para cada um). Por isso existem também pessoas diferentes como Hans Castorp, Jacopo Belbo, Anne Frank ou Konrád, ao estilo de Stendhal em vez de Hugo ou Dumas.

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As Velas Ardem Até ao Fim

As Velas Ardem Até ao Fim, de Sándor Márai, fez-me lembrar muitas cenas de outros livros. Os dois amigos eram como Gandalf e Tom Bombadil, pedras destinadas a rolar ou a ficar; a viagem para os trópicos teve algo do Heart of Darkness, e foi um Momento como o de Belbo que causou essa partida e susteve a vida dos dois velhos.

É muito comum a ideia de viver para algo, e deixar-se morrer quando esse objectivo é cumprido, mas “a morte pertence aos que ficam”; Yossarian dizia o mesmo aos pais do soldado moribundo, que fizeram uma longa viagem para que ele não morresse sozinho. Chegaram a tempo de quê? De vê-lo morrer. “What difference would it make?” Não queriam que morresse sozinho. “What difference would it make?”. Tratando-se de dois velhos, nenhuma, como eles compreenderam no fim.

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The sky is the sky

Sempre adorei viajar, mas ultimamente tenho tido alguns sentimentos contraditórios, como se não fizesse sentido ir a outro lugar. Para onde ia o cavalo em fuga, de Martin Walser? Sempre em frente, para longe dos homens, mas sem destino. Porque onde quer que chegasse, teria de partir novamente, para chegar à mesma conclusão: “the sky is the sky, everywhere you go, and people are people”. E não se pode fugir de si próprio.

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Talento

Cheech: She can’t act. Are you listening to me? She makes stuff not work – stuff she ain’t even in.

— in Bullets Over Broadway, by Woody Allen

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Endlösung der Judenfrage

Acredito, um tanto ingenuamente, que a solução para o problema de Israel é a criação de uma Comunidade como a que surgiu na Europa logo após a segunda guerra mundial. Pode-se destruir a ideia à partida lembrando as raízes culturais comuns da França e Alemanha, mas mesmo descontando as guerras e ódios mortais que fazem parte dessas raízes, parece-me que isso é uma ingenuidade de outro tipo. O que falta na Palestina não é tanto um Ghandi mas sim um Jean Monnet, com o seu lema:

Faire travailler les hommes ensemble, leur montrer qu’au-delà de leurs divergences ou par dessus les frontières ils ont un intérêt commun.

— Jean Monnet

Não duvido que já existam muitos. Lembro-me de Dahlan, há uns anos atrás; na altura, mais dos que nas suas palavras, acreditei no que não disse, porque não podia dizer. Chegará o dia em que o poderão dizer e serão ouvidos (mas como dizia Anne Frank, para muitos será tarde demais).

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