Diferentes
– Konrád nunca há-de ser um verdadeiro soldado.
– Porquê? – perguntou, assustado, o rapaz.Mas sabia que o pai tinha razão. O oficial da guarda encolheu os ombros. Fumava, estava sentado com as pernas bem esticadas em frente da lareira e contemplava o fumo do charuto. Com a tranquilidade e a superioridade de um perito disse:
– Porque é uma pessoa diferente.
— Sándor Márai, in As Velas Ardem Até ao Fim
Dostoievski defendeu a caracterização da pessoa diferente com Aliocha, nos Irmãos Karamazov, e a presença destas personagens é constante na literatura; o príncipe d’O Idiota, Larry n’O Fio da Navalha, Adrian Leverkhun, o artista de James Joyce… Na verdade, todos são “diferentes”; há tantas categorias como pessoas, e não apenas duas (ou se forem duas, são ‘eu’ e ‘o resto do mundo’, para cada um). Por isso existem também pessoas diferentes como Hans Castorp, Jacopo Belbo, Anne Frank ou Konrád, ao estilo de Stendhal em vez de Hugo ou Dumas.