O fim da democracia representativa
E gente como eu talvez se pergunte, de si para si, se essas sempre reiteradas salvações da vida de uma moribunda, que já se encontrava à beira do túmulo, realmente merecem, do ponto de vista cultural, ser saudadas, de modo que os reformadores talvez devam ser reputados indivíduos retrógrados e emissários da desdita.
— Thomas Mann, in Doutor Fausto
Quando me apercebi da falta de sentido do voto (do ponto de vista da teoria da acção colectiva), pareceu-me que o voto obrigatório, um mal menor, seria a única forma de contornar esse problema. Hoje ocorreu-me uma ideia mais subversiva: será que a democracia representativa merece esse esforço?
Uma alternativa seria criar comissões ad-hoc de cidadãos – à imagem do que se faz com os julgamentos por jurados – para votarem propostas de lei. Isto elimina a necessidade de eleger deputados, mas cria um problema: como decidir que propostas de lei devem ser levadas ao Parlamento? A solução poderia ser um sistema em que qualquer cidadão (ou grupo de cidadãos) pode propor uma lei, que terá maior ou menor probabilidade de ser ser discutida no Parlamento, dependendo da percentagem de leis anteriormente aprovadas, propostas pelo mesmo cidadão (ou grupo de cidadãos). Isto potencia a criação de instituições profissionalizadas – os partidos – que congreguem o saber e o tempo necessários à elaboração e discussão de leis, o que de resto é desejável para aproveitar os ganhos de eficiência da especialização. Por outro lado, este sistema possibilita que um indivíduo exerça uma influência considerável na agenda política do país, desde que mereça continuamente a aprovação das suas propostas.