Holocausto
Entrementes, um general transatlântico obriga os habitantes de Weimar a desfilarem diante dos crematórios do vizinho campo de concentração e declara – deve-se dizer: injustamente? – cúmplices esses cidadãos, que, sob a aparência da honestidade, tinham andado ocupados com os seus afazeres quotidianos, tentando ignorar tudo, posto que o vento vindo de lá lhes soprasse nas narinas o fedor de carne humana queimada; explica-lhes que também eles participam da culpa das atrocidades agora reveladas e impele-os a vê-las com os seus próprios olhos. Que as contemplem – eu contemplo-as juntamente com eles, em espírito, deixo-me arrastar nas suas fileiras apáticas ou apavoradas. Arrombados foram os espessos muros do calabouço de torturas, no qual um governo ignóbil, desde sempre devotado ao nada, converteu a Alemanha, e a nossa vergonha está exposta abertamente ao mundo, aos olhos das comissões estrangeiras, às quais se exibem em toda a parte essas inverosímeis visões e que relatam nos seus países que os espectáculos avistados ultrapassam em nojo tudo quanto a imaginação humana possa conceber.
— Thomas Mann, in Doutor Fausto