Ler sobre os episódios mais bárbaros da História faz-me pensar em quais serão os fenómenos que são hoje aceites, ou até desejáveis, e que as gerações futuras vão olhar com repugnância. A forma como tratamos os animais é uma possibilidade, e Milan Kundera faz uma boa defesa desse ponto de vista, na Insustentável Leveza do Ser:
A verdadeira bondade do homem só pode manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade (…) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais. E foi ai que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros.
Umberto Eco tem um texto nos Segundos Diários Mínimos em que afirma o respeito que devemos aos animais, mas lembra que “continuamos tranquilamente a comê-los”; é um ponto importante, porque muitas actividades humanas que envolvem animais têm um valor económico que as torna semelhantes à pecuária, ou ao abate para subsistência.
Por outro lado, a empatia que temos com os animais releva de um antropocentrismo que me parece moralmente frágil. Quando aprendi o conceito de espécie, baseado no sucesso reprodutor, o meu professor fez uma pausa, com um ar divertido, e disse que essa definição só tinha um problema: excluía a grande maioria dos organismos do planeta. Da mesma forma, sentimos a dor dos animais porque é semelhante à nossa, mas não é óbvio para mim que seja qualitativamente diferente do que sente uma planta, um fungo ou uma bactéria.
Racionalizar as questões éticas torna a vida mais fácil, mas é possível que os nossos descendentes se indignem com estas racionalizações, do mesmo modo que nos indignamos com as dos nossos antepassados. O que nos resta é seguir com a vida, mas sempre respeitando tudo o que nos rodeia; em mais uma iteração do que chamei affinity maturation, lembro o que Thomas Mann escreveu:
Sonhei com o estado do homem e com a sua comunidade polida, inteligente e respeitosa, atrás da qual se desenrola no templo a medonha ceia sangrenta.
– Thomas Mann, in Montanha Mágica
E mais do que isso:
O homem é o dono das contradições que existem por seu intermédio, e por conseguinte, mais nobre do que elas. Mais nobre do que a morte, demasiado nobre para ela, e isto constitui a liberdade do seu cérebro. Mais nobre do que a vida, demasiado nobre para ela, e isto constitui a piedade do seu coração.
– Thomas Mann, in Montanha Mágica