Tenho estado a ler um livro de ensaios sobre Utilitarismo e temas relacionados, de Jeremy Bentham e John Stuart Mill. A discussão sobre o livre arbítrio fez-me pensar bastante; quando era mais novo via esta questão de uma forma muito simplista, entre o determinismo da física clássica e a estocástica da mecânica quântica. Acreditava, sem grande reflexão, que o indeterminismo implicava livre arbítrio, mas a realidade é muito mais complexa. O livre arbítrio só existe se um ser vivo influenciar fenómenos quânticos, fazendo “colapsar a função de onda”, como dizia Gell-man, utilizando a força da sua vontade. Se o indeterminismo apenas introduzir probabilidades no cálculo dos fenómenos físicos, continuamos a não ser senhores das nossas acções.
Por outro lado – e já que estou a ler um livro que trata de ética, – não concordo com a ideia de que o determinismo elimina a responsabilidade moral; mesmo se transferirmos a culpa para o Universo, o legislador tem o dever de contrariar o mal, e terá de fazê-lo onde ele se manifesta, ou seja, no indíviduo. É claro que pode, e, na minha opinião, deve, agir sobre as causas sociais de um comportamento criminoso, mas também deveria fazê-lo se existir livre arbítrio.
Fará sentido discutir esta questão se as leis físicas que nos regem forem deterministas? De certo modo é irrelevante, porque já está determinado que os legisladores farão o que quer que seja, mas digo “de certo modo” porque então também estará determinado que as pessoas vão discutir o assunto, e que o resultado final, apesar de inevitável, sairá dessa discussão. E, enfim, estou a escrever tudo isto porque não poderia ser de outro modo. Lembrando os loops estranhos de Hofstadter, parece que uma boa maneira de fazer emergir a inteligência artificial seria construir um computador que tentasse perceber se tem livre arbítrio.