December 2009

Flatlining

The impetus necessary to overcome the obstacles which resist all novelties of opinion, seldom fails to carry the public mind almost as far on the contrary side of the perpendicular. Thus every excess in either direction determines a corresponding reaction; improvement consisting only in this, that the oscillation, each time, departs rather less widely from the centre, and an ever-increasing tendency is manifested to settle finally in it.

— John Stuart Mill, in Coleridge

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O centro

John Stuart Mill é um daqueles filósofos que dá gosto ler, pela clareza e convicção de cada frase; este é um atributo artístico mais evidente na literatura do que em qualquer outra forma de expressão – a beleza da forma é elevada pela beleza das ideias com uma energia irresistível. Achei interessante o que escreveu sobre a tendência inglesa para procurar o centro, não deliberadamente mas por fuga aos extremos:

There is in the English mind, both in speculation and in practice, a highly salutary shrinking from all extremes. But as this shrinking is rather an instinct of caution than a result of insight, it is too ready to satisfy itself with any medium, merely because it is a medium, and to aquiesce in a union of the disadvantages of both extremes instead of their advantages.

— John Stuart Mill, in Coleridge

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Continuidade

Power, in Case’s world, meant corporate power. The zai-
batsus, the multinationals that shaped the course of human
history, had transcended old barriers. Viewed as organisms,
they had attained a kind of immortality. You couldn’t kill a
zaibatsu by assassinating a dozen key executives; there were
others waiting to step up the ladder, assume the vacated po-
sition, access the vast banks of corporate memory.

— William Gibson, in Neuromancer

Duvidaria da santidade do estado actual do mundo, mas não por cepticismo, antes seguindo o ponto de vista de quem sobe e sabe que o pé de apoio é sempre aquele que está mais abaixo.

— Robert Musil, in O homem sem qualidades

Esta segunda citação é o burguês de Naphta, procurando incessantemente a posição confortável. A Ciência, por si só, dificilmente confortará o Homem, porque elimina falsidades sem revelar a verdade.

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Rectitude

Sent to Oxford by his father at the unusually early age of fifteen – required, on admission, to declare his belief in the Thirty-nine Articles – he [(Jeremy Bentham)] felt it necessary to examine them; and the examination suggested scruples, which he sought to get removed, but instead of the satisfaction he expected, was told that it was not for boys like him to set up their judgement against the great men of the Church.

— Jonh Stuart Mill, in Bentham

Este episódio fez-me sorrir – Stuart Mill parece mais humano que Bentham, neste aspecto como noutros, – mas não é de todo surpreendente.

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Trade-off

… mas o facto é que aos meios de transporte mais rápidos fazem mais vítimas do que todos os tigres da Índia, e não há dúvida de que a mentalidade indiferente, sem escrúpulos e negligente com que aceitamos isso nos permite, por outro lado, alcançar alguns dos nossos inegáveis êxitos.

— Robert Musil, in O homem sem qualidades

Costumava pensar que se alguém inventasse um sistema de teletransporte que tivesse uma taxa de acidentes mortais semelhante à que se verifica nos automóveis, isso seria considerado inaceitável. Não me tinha ocorrido esta ideia de um equilíbrio entre os frutos do progresso e os seus incovenientes, o que em retrospectiva parece bastante ingénuo. Como o senhor que de repente disse que já circulavam demasiados carros na cidade.

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Inimputabilidade

É engraçado como as ideias se interligam e encadeiam. Depois do Utilitarismo, que me fez pensar no livre arbítrio, leio sobre o estado mental de Moosbrugger, n’O Homem Sem Qualidades. Este criminoso tem “imputabilidade reduzida”, segundo a ciência, mas para a justiça a classificação é binária: ou pode ser responsabilizado ou não pode. A inimputabilidade é um conceito curioso; quase se poderia dizer que o acto do crime é, por si só, uma prova da falta de faculdades mentais. No fundo é uma questão de semântica, um jogo de palavras sem fundamentos sólidos, que se apresenta ao juíz como uma massa indistinta da qual ele tem de fazer sentido.

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Entre a genialidade e a loucura

Musil não desiludiu a minha impressão inicial; O Homem Sem Qualidades é um livro introspectivo, com um humor muito fino. Gosto da maneira como ele explora as contradições humanas, expondo a fronteira ténue entre os extremos.

De qualquer modo, achava perfeitamente natural ele tentar explicar a teologia através do desporto, coisa que até podia ser bem interessante, uma vez que o desporto é qualquer coisa de actual, ao passo que a teologia é uma coisa de que nada sabemos, apesar de ser inegável que continuam a existir muitas igrejas. Fosse como fosse, sentia que um acaso feliz a levara a salvar um homem brilhante, mas de vez em quando também se interrogava sobre se ele não teria sofrido um traumatismo cerebral.

— Robert Musil, in O homem sem qualidades

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Livre arbítrio

Tenho estado a ler um livro de ensaios sobre Utilitarismo e temas relacionados, de Jeremy Bentham e John Stuart Mill. A discussão sobre o livre arbítrio fez-me pensar bastante; quando era mais novo via esta questão de uma forma muito simplista, entre o determinismo da física clássica e a estocástica da mecânica quântica. Acreditava, sem grande reflexão, que o indeterminismo implicava livre arbítrio, mas a realidade é muito mais complexa. O livre arbítrio só existe se um ser vivo influenciar fenómenos quânticos, fazendo “colapsar a função de onda”, como dizia Gell-man, utilizando a força da sua vontade. Se o indeterminismo apenas introduzir probabilidades no cálculo dos fenómenos físicos, continuamos a não ser senhores das nossas acções.

Por outro lado – e já que estou a ler um livro que trata de ética, – não concordo com a ideia de que o determinismo elimina a responsabilidade moral; mesmo se transferirmos a culpa para o Universo, o legislador tem o dever de contrariar o mal, e terá de fazê-lo onde ele se manifesta, ou seja, no indíviduo. É claro que pode, e, na minha opinião, deve, agir sobre as causas sociais de um comportamento criminoso, mas também deveria fazê-lo se existir livre arbítrio.

Fará sentido discutir esta questão se as leis físicas que nos regem forem deterministas? De certo modo é irrelevante, porque já está determinado que os legisladores farão o que quer que seja, mas digo “de certo modo” porque então também estará determinado que as pessoas vão discutir o assunto, e que o resultado final, apesar de inevitável, sairá dessa discussão. E, enfim, estou a escrever tudo isto porque não poderia ser de outro modo. Lembrando os loops estranhos de Hofstadter, parece que uma boa maneira de fazer emergir a inteligência artificial seria construir um computador que tentasse perceber se tem livre arbítrio.

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Maquiavel

O Príncipe surpreendeu-me pelos exemplos reais que apresenta, sobre os reinos italianos, e pelo apelo ao seu senhor, como Camões a D. Sebastião. Apesar do cinismo aparente – talvez pragmatismo fosse um termo mais adequado, – é uma exortação honesta e bem intencionada. Rousseau tem uma leitura profunda das palavras de Maquiavel:

J’avoue que, supposant les sujets toujours parfaitement soumis, l’intérêt du prince serait alors que le peuple fût puissant, afin que cette puissance étant sienne le rendît redoutable à ses voisins; mais, comme cet intérêt n’est que secondaire et subordonné, et que les deux suppositions sont incompatibles, il est naturel que les princes donnent la préférence à la maxime qui leur est le plus immédiatement utile. C’est ce que Samuel représentait fortement aux Hébreux: c’est ce que Machiavel a fait voir avec évidence. En feignant de donner des leçons aux rois, il en a donné de grandes aux peuples. Le Prince de Machiavel est le livre des républicains.

— Jean-Jacques Rousseau, in Du Contrat Social

Duplamente maquiavélico.

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Buonaparté

Depois de ler uma edição d’O Príncipe, de Maquiavel, anotada por Napoleão Bonaparte, quase celebrei Waterloo. Napoleão é uma figura complexa, que compreendi melhor n’Os Miseráveis; Mario exaltava os seus feitos, mas os companheiros rejeitavam o tirano. Victor Hugo reflectiu também no papel que o imperador desempenhou no futuro da Europa, por onde espalhou os ideais da revolução francesa. Iluminou e extinguiu-se, como um instrumento do Destino, que revela as ideias que não podem mais ser combatidas, porque a sua hora chegou.

Demain fait irrésistiblement son oeuvre, et il la fait dès aujourd’hui. Il arrive toujours à son but, étrangement. Il emploie Wellington à faire de Foy, qui n’était qu’un soldat, un orateur. Foy tombe à Hougomont et se relève à la tribune. Ainsi procède le progrès. Pas de mauvais outil pour cet ouvrier-là. Il ajuste à son travail divin, sans se déconcerter, l’homme qui a enjambé les Alpes, et le bon vieux malade chancelant du père Elysée. Il se sert du podagre comme du conquérant; du conquérant au dehors, du podagre au dedans. Waterloo, en coupant court à la démolition des trônes européens par l’épée, n’a eu d’autre effet que de faire continuer le travail révolutionnaire d’un autre côté. Les sabreurs ont fini, c’est le tour des penseurs. Le siècle que Waterloo voulait arrêter a marché dessus et a poursuivi sa route.

— Victor Hugo, in Les Misérables

As anotações d’O Príncipe transformam Napoleão num instrumento totalmente involuntário desse progresso inexorável da Humanidade; são sentenças pragmáticas de um ditador sem escrúpulos, que não olha a meios para atingir os seus tenebrosos fins.

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