January 2010

Excesso

– Nunca reparou – disse este – como hoje em dia muita gente fala sozinha pelas ruas?

Tuzzi encolheu os ombros, indiferente.

– Há qualquer coisa de errado com essa gente. É óbvio que não conseguem viver as suas vivências até ao fim, ou assimilá-las, e têm de deitar fora os restos. É assim, acho eu, que nasce também a necessidade exagerada de escrever. Talvez isso não se veja na própria escrita, porque aí, consoante o talento e a prática, surge algo que supera em muito as motivações iniciais. Mas na leitura isso manifesta-se de forma inequívoca: hoje já quase ninguém lê, todos usam apenas o escritor para, sob a forma de assentimento ou de rejeição, e de forma perversa, se libertarem do seu próprio excesso por meio dele.

— Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

É uma ideia repetida ao longo do livro, a cura por intermédio de outrém. Por outro lado, a motivação para a escrita é parecida com a de Milan Kundera, no Livro do Riso e do Esquecimento. Nesse livro Kundera também tinha uma ideia análoga a este “já ninguém lê”, quando falava dos que só ouvem os outros como reflexo de si mesmos (“É exactamente como eu, eu, eu…”).

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Fora do comum

Por isso pensei em mandar investigar quais os livros mais lidos e com maiores tiragens, mas chegámos rapidamente à conclusão de que seriam, além da Bíblia, os almanaques de Ano Novo dos Correios, com tarifas novas e piadas velhas, que cada morador recebe do seu carteiro em troca de uma gorjeta; o que nos alertou de novo para a natureza complicada do espírito civil, porque em geral são tidos como os melhores aqueles livros que servem para qualquer leitor, ou pelo menos, pelo que me disseram sobre o que se passa na Alemanha, um autor tem de ter um número elevado de leitores para ser considerado um espírito fora do comum.

— Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Esta última parte fez-me rir. Musil consegue captar muito bem o humor das contradições, especialmente através do general Stumm.

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Sucessões

O Homem sem Qualidades é um dos livros mais estimulantes que tenho lido. Vai ao fundo de todas as questões, como a Obra ao Negro, e tem muitas das ideias que preocuparam autores contemporâneos, mas de uma perspectiva diferente (até de muitas perspectivas diferentes). O que Musil escreveu sobre o domínio dos homens de negócios fez-me pensar na sucessão de potências nacionais na história dos últimos séculos. Espanha, França, Inglaterra, a tentativa da Alemanha e depois os Estados Unidos, seguidos talvez pela Índia e pela China. No campo das profissões, a sucessão é menos limpa, mas talvez algo como: guerreiros, sacerdotes, homens de negócios… Cientistas? Desportistas?

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Government

Cada vez gosto mais de John Stuart Mill. Além do vigor com que expõe as suas opiniões, aproxima-se muito do centrismo que aprecio.

For example, he is at issue with the let alone doctrine, or the theory that governments can do no better than to do nothing; a doctrine generated by the manifest selfishness and incompetence of modern European governments, but of which, as a general theory, we may now be permitted to say, that one half of it is true, and the other half false. All who are on a level with their age now readily admit that government ought not to interdict men from publishing their opinions, pursuing their employments, or buying and selling their goods, in whatever place or manner they deem the most advantageous. Beyond suppressing force and fraud, governments can seldom, without doing more harm than good, attempt to chain up the free agency of individuals. But does it follow from this that government cannot exercise a free agency of its own? – that it cannot beneficially employ its powers, its means of information, and its pecuniary resources (so far surpassing those of any other association, or of any individual), in promoting the public welfare by a thousand means which individuals would never think of, would have no sufficient motives to attempt, or no sufficient power to accomplish? To confine ourselves to one, and that a limited view of the subject: a State ought to be considered as a great benefit society, or mutual insurance company, for helping (under the necessary regulations for preventing abuse) that large proportion of its members who cannot help themselves.

— John Stuart Mill, in Coleridge

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