Excesso
– Nunca reparou – disse este – como hoje em dia muita gente fala sozinha pelas ruas?
Tuzzi encolheu os ombros, indiferente.
– Há qualquer coisa de errado com essa gente. É óbvio que não conseguem viver as suas vivências até ao fim, ou assimilá-las, e têm de deitar fora os restos. É assim, acho eu, que nasce também a necessidade exagerada de escrever. Talvez isso não se veja na própria escrita, porque aí, consoante o talento e a prática, surge algo que supera em muito as motivações iniciais. Mas na leitura isso manifesta-se de forma inequívoca: hoje já quase ninguém lê, todos usam apenas o escritor para, sob a forma de assentimento ou de rejeição, e de forma perversa, se libertarem do seu próprio excesso por meio dele.
— Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
É uma ideia repetida ao longo do livro, a cura por intermédio de outrém. Por outro lado, a motivação para a escrita é parecida com a de Milan Kundera, no Livro do Riso e do Esquecimento. Nesse livro Kundera também tinha uma ideia análoga a este “já ninguém lê”, quando falava dos que só ouvem os outros como reflexo de si mesmos (“É exactamente como eu, eu, eu…”).